Talvez seja entre as CINZAS que aconteça as práticas corporais desta pesquisa. As cinzas como material e como metáfora para as transformações do corpo ao longo do tempo. Compreendo que a construção deste site também faz parte da minha prática de pesquisa, já que foi através das plataformas digitais, lugar onde organizei os rastros dos meus estudos e investigações como dançarina.
Este vídeo foi feito em 2020 com materiais do trabalho Mesa Branca em parceria com o artista visual Pablo Romart.
Relato de novembro de 2021
(1º semestre do Mestrado em Artes da Cena na Unicamp)
Link do projeto Mesa Branca: https://alinebonamin.hotglue.me/mesa_branca
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Durante os meses de setembro e outubro de 2022 realizei um Laboratório de criação no Festival Linha de Fuga em Coimbra, Portugal com o projeto CINZAS, campo de investigação da minha pesquisa de mestrado que tem com eixo metodológico a Prática como Pesquisa. A seguir compartilho o meu processo de inscrição para o laboratório com perguntas, sonhos e desejos de como seguir com o problema desta prática que se mantém em processo.
Antes que tudo vire cinzas, evoco as cinzas do museu nacional do Rio de Janeiro. Evoco as línguas queimadas. Evoco a poeira, o que resta do fogo. “As vozes que calam, esse grito contido”. Estão queimando a nossa memória. Estão queimando a nossa história. Esquecimento? Um vestígio, uma marca, um rastro, uma ferida. Quais gestos precisam ser repetidos para permanecer na história? Lembro que antes podia, depois não podia, agora não sei mais.
CINZAS é um campo de estudo e de experimentação em dança que deseja criar estratégias para incorporar problemas e evocar soluções provisórias na minha prática como dançarina. Através do encontro com outro, sintonizar e imaginar outros enunciados para essa prática que tem como disparador as cinzas - matéria e metáfora para as transformações do corpo ao longo do tempo.
Durante o Laboratório, gostaria de experimentar a gestualidade junto às cinzas - Como permanecer com o problema que escapa pelas mãos? A busca de cinzas ou de produzir cinzas em cada lugar que essa prática é realizada faz parte do processo e das perguntas que ela provoca. Como produzir fogo para estar juntos? Celebrar a presença e a transformação sem destruir. Talvez teremos que criar uma fogueira para permanecer ao seu redor; talvez teremos que pedir as cinzas que sobram de uma pizzaria à lenha; talvez precise acender uma churrasqueira e fazer um almoço juntos; ou: talvez nada disso seja possível. Na ausência física das cinzas, lidamos com a falta para ficcionalizar sua presença, criamos outros enunciados para aquilo que nos escapa.
Parte fundamental dessa pesquisa é a documentação, através de enunciados e dispositivos performativos escritos em uma ficha de papel, complexificando o entendimento de como o intérprete da dança constrói sua trajetória de estudo enquanto uma prática artística que produz conhecimento e alteridade.
Ao final das sessões de estudo, proponho que as fichas sejam enterradas. O ritual do enterro, rapidamente vinculado à morte, pode ser também entendido como um gesto de vida, de criação e de memória - a sobrevivência de uma imagem no tempo, um rastro. O estudo já não tem dono, vira adubo, se decompõe, pode ser recuperado por outra pessoa ou não. É preciso tempo. Tempo para incorporar a questão. Quais palavras são soterradas pelo caminho? Dançar e escrever, como diz André Lepecki “estão envolvidos no mesmo movimento, do rastro: aquele que estará sempre já passado no momento da sua aparição”.
CINZAS dá continuidade ao projeto Mesa Branca iniciado em 2017 dentro da residência artística Lote em São Paulo/Brasil junto com o artista visual Pablo Romart e, teve seu desdobramento na residência artística NAVE em Santiago/Chile 2018. Mesa Branca foi uma tentativa de criar práticas de estudo em dança enquanto sessões de incorporação. O ritual enquanto estado performativo do corpo, da matéria que é estudada, do coreógrafo que é evocado para abrir espaço para o movimento e para o encontro presencial, ou não, entre intérprete e coreógrafo. CINZAS é um tentáculo da minha pesquisa atual de Mestrado em Artes da Cena pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP (Brasil) intitulada “Dançar Problemas: a alteridade do dançarino antes que tudo vire cinzas”.
A importância em realizar esse processo de estudo/criação dentro do Laboratório Internacional de Criação Artística Linha de Fuga é a possibilidade de compartilhar, experimentar, provocar, imaginar junto com outras pessoas e colocar em movimento uma prática em coletivo; deixar falhar; cultivar um problema juntos.
CINZAS propõe evocar e dançar problemas. Evocar para tornar algo presente pelo exercício da memória e ou da imaginação. Lembrar ao dançar: "Ashes to ashes, funk to funky."
Cinzas
Março/ 2020
Dias antes do começo da pandemia
Será que o caminho é sempre se perder?
C O M P A R T I L H A M E N T O do texto
(como tornar o processo de pesquisa coletiva?)
LEITURA do texto CINZAS elaborado para o Laboratório de Criação no Festival Linha de Fuga no dia 07 de abril de 2022 no Petit Grupo orientado pela professora Sílvia Geraldi.
Instrução para a leitura:
- Escolher um lugar fora do centro do espaço para fazer uma roda;
- Disponibilizar uma ficha de papel para cada participante;
- Ler caminhando ao redor das pessoas;
- No final da leitura colocar a música "Ashes to Ashes" do David Bowie;
- O tempo da música é o tempo da escrita;
- Ao final da leitura cada participante escreve/desenha um enunciado, uma pergunta, uma imagem... a partir daquilo que foi lido;
- Fotografar as fichas;
- Carregar essas fichas para a prática CINZAS
Fichas criadas por Silvia Geraldi, Natália Catarina, Flávia, Geraldo, Flávio e Mariane
Informações sobre a minha pesquisa no site do Festival Linha de Fuga
https://www.linhadefuga.pt/artistas/aline-bonamin?lang=pt